ARLINDO DOMINGOS DA CRUZ FILHO
Arlindo Cruz: O Poeta do Samba que Transformou um Gênero
1. Origens e Formação Musical (1958–Anos 70)
ARLINDO CRUZ
Arlindo Domingos da Cruz Filho nasceu em 14 de setembro de 1958, no Rio de Janeiro, no bairro de Madureira — um terreno fértil do samba carioca . Desde muito cedo, a música acompanhou seus passos: aos sete anos, recebeu do pai — músico amador e amigo de Candeia — seu primeiro cavaquinho, e, entre os 7 e 12, aprendeu a tocar de ouvido, guiado pelas harmônicas de seu irmão Acyr Marques . Aos doze, estudou violão clássico e teoria musical na escola Flor do Méier
Ainda na adolescência, ingressou nas rodas de samba lideradas por Candeia, que logo se tornou seu padrinho artístico . Foi também um dos fundadores da lendária roda de samba no Cacique de Ramos, ao lado de nomes como Luiz Carlos da Vila, Almir Guineto, Jorge Aragão e Sombrinha — espaço que acendeu sua vocação e o conectou ao pulsar do samba carioca.
2. Fundação no Fundo de Quintal (Anos 80–Início dos 90)
Quando Jorge Aragão deixou o Grupo Fundo de Quintal, Arlindo foi convidado para integrar o grupo, função que aceitou com entusiasmo. Pelos 12 anos seguintes, tornou-se figura central — como cavaquinista, banjo, voz e compositor — e ajudou a moldar a sonoridade moderna do pagode-samba . Entre os grandes sucessos de sua autoria no grupo estão “Seja Sambista Também”, “O Mapa da Mina”, “Castelo de Cera”, “Primeira Dama” e “Só Pra Contrariar” .
3. Carreira Solo e Parcerias (Anos 90–2000)
Deixou o Fundo de Quintal por volta de 1993 e logo embarcou em carreira solo, formada em seguida com Sombrinha — uma parceria que embalou o samba até aproximadamente 2005 .
Compôs mais de 550 músicas gravadas por artistas consagrados como Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Alcione, Maria Rita e outros — “Bagaço de Laranja”, “Jiló com Pimenta”, “Dor de Amor”, “Casal Sem Vergonha”, “Meu Lugar”, “O Bem”, “Is It Love?”, e “O Show Tem Que Continuar” figuram entre seus maiores êxitos.
Em 2015, lançou o álbum colaborativo Na Veia, com Rogê, que reuniu participações de grandes nomes da MPB e samba; esse trabalho foi indicado ao Grammy Latino na categoria Samba/Pagode ).
Também teve destaque na televisão — surgiu com força no programa Esquenta! (TV Globo), entre 2011 e 2017, e gravou o DVD ‘Arlindo Cruz MTV Ao Vivo’ (2009), além dos álbuns Batuques e Romances (2011) e Batuques do Meu Lugar (2012), com participações de Caetano Veloso, Alcione e outros .
4. Samba-enredo, Herança e Reconhecimento no Carnaval
Arlindo levou sua poesia e musicalidade para os desfiles do Rio de Janeiro, compondo sambas-enredo para escolas como Império Serrano e Grande Rio .Sua primeira vitória expressiva ocorreu em 1996, com o enredo “E verás que um filho teu não foge à luta”, pela Império Serrano. Seguiram-se conquistas nos anos: 1999, 2001, 2003, 2006 e 2007 . Em 2008, venceu novamente — desta vez pela Grande Rio, com “Do Verde de Coarí Vem Meu Gás, Sapucaí”.
Também acumulou diversas indicações e prêmios como Gato de Prata, Plumas & Paetês, Troféu Troy e outros pela qualidade dos seus sambas-enredo .
5. O Homem por Trás da Música — Generosidade e Relações
Segundo o biógrafo Marcos Salles, Arlindo era um virtuose da generosidade artística — um sambista sem preconceito, que se relacionava com músicos de todas as gerações e estilos, do Partido Alto tradicional ao pagode contemporâneo .
O crítico Hélio de la Peña ressaltou seu ecletismo e religiosidade — um “batuqueiro do amor” que sabia dialogar com MPB, hip hop e ritmos da Bahia, mantendo a casa sempre aberta para novas parcerias e influências .
6. O AVC e o Período de Reabilitação (2017–2025)
Em março de 2017, enquanto se preparava para uma turnê com o filho (Projeto “Pagode 2 Arlindos”), sofreu um AVC hemorrágico que transformou drasticamente sua vida pessoal e artística. Permaneceu cerca de 15 meses internado, com múltiplas cirurgias (inclusive na cabeça) e uma embolia pulmonar — o retorno ao lar veio somente com grandes desafios.
As sequelas foram severas — Arlindo perdeu os movimentos e a fala, exigindo grande dedicação da família, fisioterapia, fonoaudiologia e atendimento constante em casa, com adaptações estruturais. Entre internações e tratamentos, ele enfrentou mais de 30 pneumonias e uma bactéria resistente; passou por hospitalizações longas, demonstrando a delicada luta que travava.
Mesmo frente a tudo isso, permaneceu presente no imaginário do samba — sua biografia Um Sambista Perfeito: Arlindo Cruz foi lançada em junho de 2025, escrita por Marcos Salles, com apoio entusiasmado de sua família .
7. O Adeus do Samba: Morte e Comoção
Arlindo Cruz faleceu em 8 de agosto de 2025, no Hospital Barra D’Or, no Rio de Janeiro, aos 66 anos — informação confirmada por sua esposa e por veículos oficiais .
A chegada da notícia inspirou homenagens emocionadas: o bloco Cacique de Ramos evocou seu legado como “capítulo essencial da nossa caminhada; colegas como Zeca Pagodinho lamentaram publicamente a perda do amigo, parceiro e compadre. Sua trajetória, marcada por superação e contribuição cultural, ecoou na imprensa e nas redes, com elogios a sua alma generosa e obra imortal.
8. Legado Duradouro — A Herança de Arlindo Cruz
O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) divulgou que Arlindo deixa 847 composições e 1.844 gravações em sua base de dados. Suas músicas continuam tocando em rádio, festas, carnaval e lives — cimentando sua presença no coração do samba brasileiro . Além disso, seus herdeiros continuarão a receber direitos autorais por 70 anos, como estabelece a legislação .
Alguns de seus hits mais regravados e ouvidos nos últimos anos incluem "O Show Tem Que Continuar", "Meu Lugar", "Samba de Arerê", "O Bem", "Agora Viu Que Perdeu e Chora", "Camarão Que Dorme A Onda Leva", entre outros .
Seu legado musical, que atravessou gerações, permanece como luz e resistência — presente em sambas de enredo, rodas, rádio, e na emoção dos sambistas e fãs. Como samba-enredo recente de Império Serrano lembrou: “Serrinha é teu canto para vida inteira” .
9. Conclusão — A Eterna Voz do Samba
Arlindo Cruz foi muito mais do que um músico talentoso; foi um elo, desde o samba raiz até as novas gerações, sustentado por virtuosismo, humildade e paixão. Sua jornada — iniciada em Madureira, gravada no Fundo de Quintal, elevada nos estúdios e desfiles, e marcada pela luta após o AVC — traduz a face resiliente e multifacetada do samba.
Hoje, o samba chora, mas sua música segue viva em cada cavaquinho, verso e roda de samba. Arlindo Cruz deixa uma herança feita de emoção, sabedoria e, acima de tudo, amor à cultura que ajudou a moldar.
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